O Dia da Terra
- há 3 dias
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Termos dias para as coisas sempre nos soou mal. Existirem dias para as crianças, para a mulher ou para a Terra só nos alerta para o facto de estarmos, de alguma forma, a errar. Não são dias de homenagem, mas de alerta. E esses dias têm, a nosso ver, um impacto comercial bem maior do que de mudança.
Não é woke nem cliché afirmar que o planeta está a enfrentar desafios constantes e cada vez maiores. Não há uma forma integrada de pensamento planetário que nos permita, em rede, implementar alternativas que facilitem certos retrocessos ou desaceleramentos que nos seriam benéficos. Vivemos num mundo onde o funcionamento em rede é o futuro — digital, é verdade, mas que pode e deve também ser orgânico. Há muitos argumentos que afirmam ter sido sempre assim: alterações de fundo que levam o mundo a sofrer mudanças, algumas drásticas e mesmo naturais, cíclicas. Mas tal não é inteiramente verdade, porque a velocidade das alterações não tem paralelo desde a Revolução Industrial.
Mudamos a uma rapidez que não permite ao planeta tempo de adaptação. Vivemos num mundo “para ontem”. Tudo tem de ser imediato e observamos isso no nosso dia a dia, até numa simples série de televisão, em que temos disponíveis todos os episódios ao invés de esperarmos semana a semana por um novo. Isto, que parece inconsequente, é uma imagem do imediatismo atual.
Aprendemos muito recentemente a beleza da espera. Compramos uma peça de barro, mas a produção da mesma necessita que não chova para poder ser feita; ou numa técnica que se chama cianotipia — um processo fotográfico que só funciona havendo sol. O que têm em comum, para além da beleza e da ancestralidade, é a espera. A rapidez da falsa necessidade de mudança, aliada ao consumo excessivo, está a produzir catástrofes reais no nosso planeta. E até os milagres anunciados do futuro, como a IA (Inteligência Artificial), têm um consumo de recursos absolutamente anormal.
Este texto não pretende ser derrotista, mas sim dar a nossa perspetiva de como uma empresa como a nossa pode fazer diferente na área que ocupa, enumerando algumas ações que parecem pequenas, mas têm um impacto real. E como nós, como parte de um todo, podemos fazer diferente em casa e no bairro onde habitamos.
O nosso foco profissional são as viagens de incentivo corporativas e em grupo. Num clima de excesso de turismo, temos uma responsabilidade acrescida e também nos compete desmistificar o “mal” das viagens organizadas em grupo. Uma viagem de grupo pode ser considerada negativa, mas se mudarmos os métodos, procurarmos os parceiros corretos e assumirmos um papel que nem sempre é fácil no mercado — onde se julga que tudo se pode —, conseguimos fazer a diferença de uma forma muito mais impactante e, sem dúvida, positiva.
Não podemos anular a pegada carbónica, mas podemos compensá-la de forma direta em ações com os grupos. É simples matemática: se uma única pessoa tiver um impacto positivo, multiplicado por cem, o resultado é óbvio. Evitar a utilização de animais em atividades, sensibilizando antes para a sua importância na cultura local; utilizar sacos de compras produzidos a partir de sobras de roupa usada; escolher refeições com recurso à produção local e sazonal, otimizando as mesmas para evitar o desperdício (e, havendo-o, canalizá-lo para associações de apoio a comunidades carenciadas). Sensibilizar para o fim das embalagens descartáveis de uso único, que geram imenso lixo, é crucial. Todas estas, e outras ações, podem e devem ser implementadas nos países para onde viajamos e cujo turismo pode ter um impacto extremamente benéfico, desde que regulado.
A maior parte dos ecossistemas com maior diversidade biológica situa-se no Extremo Oriente ou em África. As viagens para estes locais, apesar de a pegada carbónica ser superior em comparação com o país “do lado”, podem ter um impacto muito positivo que compensará noutros pontos ODS da ONU, também eles de igual importância.
Como podemos fazer a diferença com pequenas ações?
Eis alguns exemplos que podemos aplicar quer no seio familiar, quer em comunidade:
Educação: É, e será sempre, a base da mudança em qualquer plano das nossas vidas. Uma comunidade esclarecida é uma comunidade sem medo da diferença e positivamente produtiva.
Leitura e Diálogo: A próxima geração está a ler mais livros, ao contrário do que se previa. Incentive e participe em grupos de leitura, não só para os mais jovens, mas principalmente para os mais velhos, que elucidem sobre os desafios correntes e futuros, para que em grupo se pensem alternativas e soluções — primeiro familiares, depois comunitárias.
Participação Ativa: Participe em workshops e eventos que promovam práticas sustentáveis para o dia a dia. Muitas organizações e câmaras municipais já o fazem. Organize grupos de recolha de resíduos nas praias ou nas matas.
Gestão da Água: Em casa, comecemos pela água. Estima-se que, já em 2030, o consumo de água potável exceda a produção em 40%. Isto é um problema grave. Tome duches rápidos; use os programas de lavagem rápida das máquinas ao invés de lavar à mão; feche a torneira enquanto lava os dentes; compre produtos locais que promovam a produção regional e reduzam o consumo “escondido” de água associado ao transporte; compre menos roupa (a produção de um par de calças de ganga consome um volume de água inconcebível); plante ervas e espécies autóctones ao invés de relvados ou plantas exóticas que exijam mais rega.
Resíduos Orgânicos: Tente fazer compostagem. Há muitas câmaras municipais que já pedem a separação destes resíduos em sacos específicos ou pode fazê-lo em casa. No vaso da sua planta preferida, terá um solo mais rico em nutrientes e com muito menos intervenção química.
Consumo Consciente: Comprar local e sazonal incentiva a produção, mantém postos de trabalho e reduz o uso de recursos nos transportes de frutas ou legumes de origens distantes. O eco-minimalismo é uma tendência com cada vez mais entusiastas. “Ter” já não é assim tão cool. A forma como escolhemos com maior consciência, como compramos com menos frequência, mas com mais qualidade e durabilidade, ensina-nos a gostar mais do que já temos em vez de adquirirmos novos produtos pela simples tendência da moda.
Lixo Eletrónico: Recicle os seus produtos digitais. O lítio perdeu rapidamente o “brilho” da solução para os males da poluição. A par dele estão outros componentes tóxicos no melhor amigo da população mundial: o telemóvel. E temos ainda computadores, cabos e eletrodomésticos que devem ser entregues em locais indicados para reciclagem.
Por fim, porque não juntar-se a um jardim ou horta comunitária? Porque não fazer um jantar onde o mote seja cada amigo trazer produtos locais ou pratos feitos com o que já tinham em casa, usando embalagens reutilizáveis?
Porque não juntar-se a um clube de costura onde aprenda técnicas de recuperação de roupa? Os japoneses já o fazem há imenso tempo — chama-se Boro e as peças podem ser embelezadas pelo Sashiko.
Organize uma manhã de limpeza no seu bairro. Ficará a conhecer melhor os vizinhos, passará tempo ao ar livre e devolverá a dignidade ao espaço onde os nossos filhos brincam diariamente.
Há dias, fizemos uma viagem de inspeção ao sul de Itália. Apercebemo-nos de que, há cerca de cinco anos, uma praga destruiu a quase totalidade das oliveiras autóctones. Foi-nos dito que, mais do que a perda da produção de azeite, tão necessária para a região, perdeu-se história, património cultural e identidade. É a forma correta de ver as perdas que ocorrem diariamente. São pequenos pedaços de todos nós que se perdem para a memória. E há coisas que são melhor vividas do que lembradas.


